Artigos de Opinião

2007-10-11

O mergulho amador na vertente técnica desde há alguns anos tem crescido exponencialmente no mundo inteiro e Portugal não é excepção. A vontade em explorar novas e mais profundas fronteiras, a necessidade de lá permanecer mais tempo com diferentes tarefas, a motivação exclusivamente humana de desafio aos limites do corpo e da natureza, com sucessivos mergulhos extremos na tentativa de novo recorde, fruto duma simples motivação pessoal, tão válida como qualquer outra razão, fazem esta disciplina de mergulho uma das mais apaixonante e perigosa de todas.

Atentas a este fenómeno as principais agências de mergulho amador, algumas mais reconhecidas mundialmente do que outras, no entanto deixo a escolha da agência certificadora ao critério de cada um, já que o que faz a diferença é o conjunto aluno/instrutor e não a agência, abriram portas aos novos clientes, ávidos em novas técnicas, equipamentos, profundidades, novos desafios, com novos cursos, mas também com novos e velhos perigos, estes mais reais do que nunca e é isto que todos têm de definitivamente tomar consciência, os perigos inerentes a esta actividade.

Esta vertente de mergulho, ultrapassa largamente a vontade, e a disponibilidade financeira, pois requer dedicação a tempo inteiro, treino regular, muitos mergulhos, o assumir que somos capazes de o fazer, mas sempre com a consciência que os novos limites impostos ao corpo e alma podem, a todo o momento, ao contrário da fama que é efémera, ter um gosto bastante amargo e duradoiro.

Em Portugal a recente mudança de legislação permite-nos agora legalmente fazê-lo, ainda bem que assim é.

Mas será que a comunidade de mergulhadores técnicos está realmente preparada para isto? Quero referir-me a todos, escolas, operadores, mergulhadores, autoridades, seguradoras, pessoal médico, etc.

O assunto para além de muito actual dava provavelmente matéria para muitas revistas, mas o que motivou escrever este artigo foi simplesmente o sentimento de partilha duma das muitas experiências pessoais, que ao contrário da descrição duma viagem de sonho com mergulhos fantásticos, dum mergulho extremo bem sucedido, ou dum simples opinar sobre determinada matéria, foi um mergulho bem planeado, bem executado, mas mal sucedido com maus resultados, que poderia ter mudado a minha vida para sempre.

Como responsável por uma escola com pretensões também no mergulho técnico, a fazer quase 10 anos sobre o meu primeiro mergulho em trimix e centenas de mergulhos abaixo dos 66 metros, cabem-me algumas responsabilidades nesta matéria, entre as quais, alertar e prevenir os seus riscos, relatando com humildade situações reais de perigo que se passaram comigo e meus pares ao longo destes anos de actividade:

Na busca das nossas motivações e objectivos procuramos os melhores pedagogos para nos ensinar, compramos os melhores e mais recentes equipamentos, utilizamos as últimas configurações, utilizamos o último e melhor modelo de descompressão, que diga-se, no século XXI em Física ainda é uma Teoria (com vários e diferentes Modelos), nem Lei, quanto mais Principio, mergulhamos disciplinadamente os nossos planos, logo a nós, não, não nos acontece nada, só mesmo aos outros, e esses devem ter feito algo de errado, ou se calhar talvez não.

Foi isso que, nesta minha última viagem, aconteceu, o que só acontece aos outros, uma dor no braço depois dum mergulho.

Pensei na altura que dcs não podia ser, pois o mergulho tinha corrido normal, conforme o planeado. Não estava cansado, relativamente bem preparado fisicamente, devidamente hidratado, a tomar antioxidantes, por diversas vezes já tinha feitos este tipo de mergulhos logo psicologicamente não acreditava que fosse possível, mas a dor e a dormência não eram psicológicas, era reais. Com o avançar do dia a dor passou, mas à noite, deitado, a dor voltou, com a agravante de dois dos dedos da mão esquerda perderem a sensibilidade. Levantava-me e a dor passava.

Era tudo tão estranho, deitado dores, de pé com a maior movimentação sanguínea a dor passava.

Sabia no meu inconsciente agora que era dcs, mas até o admitir passou a noite inteira.

Acho que o mais difícil, foi admitir que tinha chegado a minha hora. Fui de manha cedo para o hospital, onde me foi diagnosticado doença de descompressão tipo II (muscular no braço esquerdo). Três dias de internamento na câmara de descompressão, um filipino com dificuldades em equalizar nas nossas descidas para os 20 metros, duas tabelas 5 e uma tabela 6, 72 horas para poder voar, 6 semanas de repouso, sem poder trabalhar, muitas despesas extra, são o resultado desta aventura.

Ainda bem que escapei outra vez, mas na memória fica a lembrança e no corpo mais uma mazela:

Sei que não referi a profundidade o tempo de fundo, quais as misturas, porque para o caso não interessa, interessa sim, dizer que abaixo dos 130 metros caso se manifestem sinais e sintomas de dcs, tenha a sua conta bem recheada pois não existe seguro que cobra as elevadíssimas despesas do tratamento na câmara de descompressão.

Mas se tivesse sido dcs neurológica, se tivesse morrido como muitos outros, teria valido a pena tanto mergulho, tanto desafio, treino ou outra coisa que lhe queiram chamar?

E se não houver câmara de descompressão perto, e se não fosse a mim que tivesse acontecido e tivesse acontecido a um aluno?

Bem, perguntas difíceis estes ses, deixo porém a resposta ao critério de cada um antes de mergulhar, cá por mim vou continuar com esta apaixonante forma de viver, cada vez mais exigente comigo próprio, com os amigos que me rodeiam e com aqueles que me procuram para novos cursos, mas também com a certeza que poderá não chegar para evitar problemas, mas o aceitar e estar bem conscientes dos riscos inerentes a este tipo de mergulho também é responsabilidade, de cada mergulhador.

Jorge Marques