Artigos de Opinião
2007-11-13 Sempre ouvi dizer que se quiseres ter bons sítios para mergulhar, pergunta aos homens do mar, aos pescadores, escusado será de dizer porquê. Ao consultar os registos dos pesqueiros (locais de pesca profissional), verifica-se facilmente que a zona marítima ao largo do Porto tem uma imensidão de marcações. Como sabem se são chapas, cascos ou simplesmente pedras, não faço a mínima ideia, mas ao falar com os pescadores mais experientes, descrevem-nos esses locais com tal exactidão que dá ideia que lá mergulharam centenas de vezes. E tem sido através deles, que os mergulhadores mais activos do norte, têm ao longo destes anos descoberto e mergulhado em novos locais, proporcionando assim a todos os mergulhadores uma grande variedade de opções no que respeita aos sítios com interesse para mergulhar. Dentro das profundidades que se insere o mergulho amador desportivo, vários são os artigos sobre os locais de mergulho do grande Porto já publicados, embora todos eles deficientes na quantidade de informação relativa aos navios afundados bem como das pedras interessantes existentes nesta área, de qualquer forma a quantidade de `dive sites´ descritos já é considerável. Na vertente do mergulho amador técnico, o trabalho já leva também uns anos e muitos mergulhos, mas com resultados muito abaixo das expectativas. Esse facto devesse a vários factores, entre os quais se destaca: A falta de formação/certificação dos mergulhadores nesta área, a anterior legislação, as habituais más condições de mar, a falta de barcos licenciados para o efeito, refiro-me concretamente à ausência de embarcações MT no Porto, mas sobretudo à falta de embarcações que legalmente possam navegar para além das 6 milhas, bem necessário, a pouca inclinação da placa continental nesta área, faz com que a maioria destes locais de mergulho estejam fora do limite referido, sem falar no tempo e dinheiro que uma investigação deste tipo envolve. A partilha de informação dos conhecedores desses magníficos locais, fará certamente que a nossa costa fique melhor e mais rigorosamente documentada, com benefícios evidentes para todos. Na parte que me toca farei os possíveis para descrever alguns desses locais onde com regularidade mergulhamos. Alguns dos sítios de mergulho que irei descrever são barcos afundados, alguns dos quais até o seu nome desconhecemos e situam-se entre os 52 e os 75 metros, num universo de mais de 30 referenciados. A Sudoeste da barra do Douro, mais propriamente na Zona da Galega, um casco jaz aos 52 metros, uma traineira aos 54 metros, e pelos menos mais 8 cascos estão marcados, só por terra destas pedras (a Este); a noroeste da barra do Douro, o Salir (que dizem que é um vapor, mas nem o nome se tem a certeza que é este) e a uma milha deste mais a sudoeste, o Kassamba aos 75 metros. Comecemos então pelo Kassamba que na minha opinião é o barco mais imponente afundado em águas portuguesas. Mergulhado pela primeira vez por uma equipa de mergulhadores profissionais logo após o seu afundamento, em 26 de Março de 1985, tem ao longo destes últimos anos sido frequentemente visitado e devidamente marcado. O cargueiro dos contentores, como é conhecido localmente, está afundado a cerca de 12 milhas da Barra do Douro, transportava contentores, mais propriamente 158, que se diz conter produtos têxteis e vinhos, tendo de comprimento 138 metros. Deu o alarme a 1 milha da saída do Porto de Leixões e foi transportado para alto mar, pois caso afundasse à entrada da barra poria toda a navegação de Leixões em perigo. A principal causa do seu afundamento foi o rebentamento dum tanque de lastro que descompensou o navio fazendo deslocar alguns dos seus contentores provocando um rombo no casco, o mau tempo fez o resto. O navio angolano vinha de Cádis e tinha como destino os portos de Luanda e Lobito. A totalidade dos seus 31 tripulantes foram resgatados, bem como um cachorro que vinha a bordo. Jaz num fundo de areia entre os 72 e os 75 metros de profundidade, está tombado a bombordo, inteiro, estando o leme à profundidade maior, a cerca dos 75 metros. Independentemente do tipo de circuito utilizado, ou mistura de gases, não é possível circunda-lo na sua totalidade num só mergulho. A zona da ré é a mais interessante e está devidamente marcada. É hoje possível mergulhar chegando sobre a amura de estibordo com uma profundidade de cerca 60 metros, chegar aos janelões e seguir um cabo directamente à hélice. O leme desassoreou nos últimos anos, bem como a hélice que no entanto só tem 2 pás completamente visíveis. Nesta zona do barco existe um cardume de fanecas residentes de tamanho apreciável. Circulando o navio pela esquerda já em direcção à proa vêm-se os cabos de amarração de ré pousados no fundo, muitos covos e, mais à frente, começam a aparecer um sem fim de contentores. É possível encontrar garrafas de vinho ainda inteiras. Muitos cabos e redes estão presos a este navio. A zona da proa tem menos interesse mas está igualmente marcada, existe um cabo da proa ao primeiro mastro e deste ao segundo, que está já muito perto do castelo de ré. A visibilidade poderá variar de 20 metros a quase nula dependendo do estado do mar, suspensão e luminosidade exterior. Devido à sua distância de costa é sempre possível ter encontros com cardumes de peixe-porco, e golfinhos, fora e dentro de água. O afastamento da costa, a profundidade, a quantidade de redes existentes no local, torna este mergulho muito exigente, pelo que só deve ser efectuado por mergulhadores experientes e acima de tudo devidamente certificados. Jorge Marques |


